maio 27th, 2010 §
Um podcast, pra você que só usa a internet pra mandar depoimentos ridículos para seus amigos no Orkut e não sabe que tem coisas interessantes na rede, é um bate papo entre amigos, normalmente em torno de um tema selecionado, que é gravado em mp3 e distribuído gratuitamente. Existem podcasts sobre os mais variados temas, alguns muito bons, outros muito chatos. A lista abaixo mostra alguns dos mais divertidos que já ouvi. Baixe e confira.
- Nerdcast: provavelmente o mais conhecido e badalado dos podcasts, muita qualidade no aúdio e nos efeitos, com pessoas carismáticas e divertidas. Alottoni e Azaghal conduzem o bate papo com muito humor, e é impossível não rir quando o tema é mundano, como carnaval, bebedeiras e manias, mas também falam de cinema, literatura, quadrinhos e outras coisas. Já está em sua 210ª edição. Imperdível.
- RapaduraCast: Jurandir Filho e Maurício Saldanha conduzem um ótimo podcast sobre cinema, com cobertura e opiniões sobre os filmes mais recentes. As curiosidades e as teorias são bem legais, já que eles não pensam duas vezes antes de falar o que pensam.
-Monacast: sim, sim, existe também um podcast da mais alta qualidade destinado ao público feminino. O Monacast, das Monalisas de Pijamas, que comenta sobre tudo aquilo que a mulherada gosta. Já ouvi alguns, confesso, e é absurdamente divertido.
- Podcast MdM: o MdM (melhores do mundo), é o melhor blog brasileiro sobre quadrinhos, com atualizações diárias e quentinhas. O podcast dos caras também tem temas interessantes. As vezes é bastante apelativo e o excesso de palavrões e a edição um pouco preguiçosa podem irritar os iniciantes, mas, pra quem gosta do assunto, é show de bola.
- PodEspecular: esse é um podcast bem novo, até agora foram apenas 04 edições, mas é muito bom. O tema é a literatura, cinema e outras formas do fantástico, o que envolve ficção científica, terror e outros gêneros. Sempre dão ótimas dicas de livros e filmes também, e capricham na qualidade. Espero que se mantenham firmes no projeto, que tem tudo para dar certo.
maio 26th, 2010 §
O que te impede de ler os clássicos da literatura? A linguagem antiquada, a estrutura narrativa linear e ultrapassada, os costumes descritos detalhadamente e de forma soporífera? Pois saiba que é sim possível ler um autêntico clássico, se divertir e não parecer careta, basta você comprar esse livro aqui:

O trabalho se Seth Grahame-Smith pode parecer simples, e talvez realmente o seja, mas é muito criativo e divertido. Ele converteu o clássico Orgulho e Preconceito de Jane Austen em uma história repleta de zumbis canibais, donzelas treinadas em templos Shaolim e ninjas assassinos. Heresia? Ah, por favor. A obra de Jane Austen é recheada de humor e ironia, rica em sua linguagem e dinâmica, mas, mesmo assim, dificilmente se tornaria hoje o livro favorito de um público chegado a vampiros afeminados de todos os tipos. A adaptação de Seth Grahame-Smith manteve intocado quase todo o material original, lançando mão das criaturas sobrenaturais e dos contra ataques com espadas katana apenas nos momentos em que a história ameaça cair na chatice absoluta.
Você acompanha a saga das irmãs Bennet em uma Inglaterra vitimada por uma praga de zumbis. As famílias enviam seus filhos e filhas para o oriente, para que sejam treinados em artes marciais mortais, de forma a proteger o reino britânico das criaturas satânicas. É nesse cenário peculiar que são apresentadas as garotas Bennet, exímias e mortais lutadoras, que se envolvem em assuntos mais mundanos, como romances e casamentos. E toda vez que surge a ameaça de pieguice, braços e cabeças são decepados. O que mais você quer de um clássico? É simplesmente imperdível. Leiam.
maio 24th, 2010 §
Acabou ontem nos EUA a série mais cultuada, comentada e assistida da década. Com quase duas horas de duração, o capítulo final de Lost põe fim a seis temporadas de mistérios, discussões e teorias sobre o destino derradeiro dos sobreviventes do vôo 815 da Oceanic.
Incrível como a TV conseguiu roubar o público de outras mídias mais glamourosas, como o cinema, nos últimos anos. Isso se deu principalmente pela possibilidade de ir além dos 120 minutos, considerado universalmente o tempo médio padrão de um longa metragem, e com todo o tempo do mundo, por assim dizer, as produtoras poderia levar ao público histórias muito mais complexas, sólidas e profundas do que seria possível na telona. Verdade… e mentira.
Lost arrebatou a imaginação de fãs ao redor do mundo pela originalidade, o que em nossos tempos é um grande mérito. Apresentou uma linguagem narrativa moderna e dinâmica, personagens bem construídos, um plot cativante e com mistérios o suficiente para gerar discussões e curiosidade. Algo tão brilhantemente construído, que ruiu diante de sua própria grandeza, já que a partir da quarta temporada a série foi perdendo força, brilho, criatividade e, chegando agora aos derradeiros capítulos, era um suplício aguentar acordado cada episódio, com os personagens fazendo juz ao nome da série, perdidos, indo e vindo, andando em círculos que levavam a lugar nenhum, evidenciando, a cada minuto, que isso tudo não acabaria bem.
Fica óbvio, encerrada a série, que os roteiristas foram vencidos por sua própria criação. Lost se tornou grande demais para ser fechada com dignidade, cresceu além da capacidade criativa do time responsável por seu desfecho e, infelizmente, a melhor série da década, teve a pior temporada final da história da TV. E vejam bem, eu acompanhei Arquivo X durante longos anos, e acreditava que o final da série de Chris Carter era o limite da mediocridade no encerramento de uma jornada televisiva desse porte. Lost consegue ser pior do que imaginou o mais pessimista dos expectadores.
Sem explicar absolutamente nada dos infindáveis mistérios plantados ao longo de sua existência, Lost apelou para cenas risíveis e patéticas de ação em seu desfecho e, pior, para ceninhas melodramáticas tentando arrancar lágrimas da audiência. Acho que será muito difícil enganar os seguidores pensantes da série com a prentensa “tensão” final. O único incômodo real é ver que se está chegando aos minutos finais e nada se resolve.
Apelar para soluções fáceis e melodramáticas, ou mesmo religiosas, esconder a falta de respostas com o argumento da “fé”, que com certeza vai iludir muitos fãs xiitas, incapazes de um pensamento crítico, foi triste. A despedida de Lost não poderia ser mais deprimente. A TV perdeu uma grande oportunidade de superar o cinema e entregar um clímax digno da audiência cativa que acompanhou toda a série. Tenho certeza que não serão poucos os que vão pensar: “o final de Lost era melhor na minha imaginação”.
maio 19th, 2010 §
Mais um trabalhinho de colorização digital, dessa vez, sobre a obra do saudoso Michael Turner, que ganhou uma legião de fãs pelo seu estilo único e infelizmente faleceu precocemente. A arte final é do Mattias, as cores, são minhas.


maio 12th, 2010 §
Enquanto não libero as vídeo aulas de colorização digital no Photoshop, vou mostrando algumas técnicas de trabalho. Essa bela ilustração da Feiticeira Escarlate é de Jamie Fay, e serve perfeitamente para demonstar uma forma diferente de pintura. Primeiro, a imagem original, em preto e branco:

Aqui a imagem já com as cores básicas, usei tons diferentes de vermelho, para distinguir a capa do uniforme.

E a versão final, já com os efeitos de luz, reflexo, sombras e o fundo renderizado. Tempo de produção: 45 minutos.

maio 11th, 2010 §
Incrível como mesmo com pouca experiência ou tempo, é possível colorir ilustrações digitalmente no Photoshop e produzir trabalhos de qualidade. A técnica é simples e exige mais paciência e atenção aos detalhes do que habilidade com o programa propriamente dito. Tome como exemplo a ilustração do artista Doom-san abaixo.

Com uma ajudinha do Google para conseguir uma referência para as cores e cerca de 40 minutos de trabalho, terminei o trabalho assim:

E a intenção era só praticar. Com umas duas horas de trabalho e algumas experiências, é totalmente possível produzir uma peça de respeito. Fique de olho, pois, na próxima semana, vou postar uma série de vídeo aulas sobre colorização digital no Photoshop e você também vai poder colorir sua arte sem suar a camisa.
abril 16th, 2010 §
Battlestar Galactica foi uma das melhores, senão a melhor, série de ficção científica exibida na TV. Além da ação e de toda a tecnologia comuns ao gênero, ela apresentava profundos conflitos, familiares, pessoais, sociais e políticos. Encerrada em 2009, deixou uma legião de fãs órfãos de boas histórias espaciais dramáticas e poderosas. É aí que entra em cena Caprica.

Caprica, exibida nos EUA entre janeiro e março desse ano, é uma prequel de Battlestar Galactica, e mostra fatos que antecederam em 58 anos a destruição das doze colônias pelos Cylons. Assim como a série mãe, também possui cenas de ação intensas, mesmo que em menor quantidade, suspense e uma trama cheia de reviravoltas interessantes. E, como não podia deixar de ser, é recheada de eventos trágicos e conflitos, familiares e raciais, principalmente, que humanizam os personagens e os tornam verossímeis.
Os eventos de Caprica ocorrem tanto no mundo real, onde a companhia Graystone, liderada por Daniel (Eric Stoltz) tem a missão de construir um exército de robôs inteligentes para atuarem como soldados, e ele trabalha na versão beta de um Cylon, uma máquina de destruição eficiente, mas pouco ágil e inteligente. Um grande atentado terrorista tira a vida de Zoe, filha de Daniel e de Tamara, filha de Joseph Adama. Os pais, diferentes em muitos aspectos, tornam-se próximos pela fatalidade em suas famílias. E, então, temos o mundo virtual.
Imagine uma mistura de MSN com o jogo de The Sims, com o acréscimo de não controlar um personagem, mas sim se tornar ele. Ver o que ele vê, sentir o que ele sente, andar onde ele anda. Com o holoband, invenção da Graystone, isso é possível e comum entre os jovens de Caprica. Nesse mundo virtual, a falecida Zoe programou um avatar (no sentido de personagem/representação) que continua existindo mesmo após a sua morte. E esse avatar poderá servir tanto para apaziguar o coração de seu pai, após a perda da filha, como também para dar mais vida para o até então patético soldado Cylon. E é isso que acontece, Daniel transfere o avatar de Zoe do mundo virtual para o robô.

Joseph Adama tem a mesma esperança, de encontrar um avatar vivo da filha no mundo virtual. Para isso, vai precisar tanto da ajuda de Graystone, como de coragem para mergulhar num mundo virtual caótico, violento e imoral. Mas, a história tem tantas subtramas que é quase impossível descrevê-la com precisão. O mundo virtual é um deleite visual. Imagine uma mistura de Matrix com filmes noir de gangsters, e você terá uma pequena idéia. Ainda na história temos seitas religiosas fanáticas, terroristas, espionagem, conspirações e traições.
Caprica não é tão bom quanto Battlestar Galactica, mas respeita e agrada ao fãs da série. Se você nunca assistiu BG, pode até acompanhar a série Caprica, sem problemas, mas, confesso, que não teria muita graça. Agora, se você é fã de ficção, vai fundo.
abril 13th, 2010 §
Pilhas e pilhas de livros para ler, que se acumularam continuamente nos últimos meses. Não é brincadeira, não. Tem livros superlotando as estantes, a mesa do computador, dentro e acima dos armários, balançando sobre cadeiras, no quarto, na sala, na cozinha, tem livro pra todo lado. Aproveitando agora uma certa folga nos horários, vou começar a por a leitura em dia. Um verdadeiro passeio por livros enterrados a não sei quanto tempo, pedindo por atenção e juntando pó. Já até organizei um sistema de leitura prático, no meio de tantas opções: o primeiro que o meu braço alcançar, esteja eu onde estiver, será lido.

Os Livros de Sangue de Clive Barker são compostos por seis volumes. Tenho aqui os dois primeiros, que emprestei do amigo de um amigo que nem deve lembrar que estão comigo (mas vou devolver). Por enquanto, só li o primeiro, e ótimo, volume. Dificílimo de encontrar, descobri eu, que pretendia comprar um exemplar, já que gostei muito. Está esgotado há anos e, em um sebo virtual, encontrei valendo mais de R$ 100,00. Não é pra menos. Os contos que tornaram Barker famoso são incrivelmente sangrentos e, ao mesmo tempo, delicados em sua essência. Barker, entre outras coisas, é o criador da série Hellraiser, e desde esses livros já mostrava sua predileção pelo fantástico, bizarro e sombrio. Se você acha que “Crepúsculo”, “True Blood” ou “Vampires Diaries” são séries de terror, com seus monstros humanizados e românticos, em constante culpa por seus atos quase civilizados, passe longe dessas histórias.
Os monstros de Clive Barker remontam ao ideal primitivo e aterrorizador de destruição sem culpa ou remorso. O mal é absoluto, sem espaço para arrependimentos ou regressos. As criaturas que povoam os Livros de Sangue são capazes de arrancar a sua pele, centímetro a centímetro, com um enorme sorriso nos lábios, e lamber os seus músculos expostos pelo puro prazer de ver o medo em seus olhos.
A trama se inicia com “Livros de Sangue”, onde um médium charlatão enfurece os mortos, e é abatido com uma fúria terrível. O sangue escorre de cada página, as descrições cruéis são vívidas e convincentes. “Os mortos têm estradas”, é uma das frases desse conto, junto de outras, que mostram as qualidade de Barker como escritor.
“O Trem de Carne da Meia-Noite” é a segunda história, que narra o horror no metrô de Nova Iorque, quando um assassino serial usa métodos pra lá de sádicos para abater suas vítimas nos vagões dos trens. Da violência urbana para o fenômeno sobrenatural em um piscar de olhos. Vísceras a mostra, dilacerações, línguas arrancadas e tudo o mais que uma bom conto gore deve ter. O meu favorito do livro.
“O Yattering e Jack” mostra um Barker absudamente bem humorado, ao exibir um demônio infernizando a vida de um homem que parece não se importar com sua presença, o que leva o monstro praticamente a loucura. Certas passagens são realmente dignas de uma comédia, como o peru assado que ganha vida e ataca os moradores ou a árvore de natal assassina. Muito bom.
“Blues do Sangue de Porco” retoma o terror de uma maneira mais direta. Em uma instituição para menores infratores, um novo professor se vê às voltas com um mistério que liga um jovem problemático a uma porca possuída. Estranho? Até demais. Apesar dos bons momentos, é a história mais fraca desse primeiro volume.
Os fantamas existem, são caprichosos e vaidosos, presentes em “Sexo, Morte e Luz das Estrelas”. Uma companhia teatral recebe visitas do além durante os ensaios que levarão a última peça a ser encenada em um velho teatro. Barker, autor de peças teatrais, parece conhecer muito bem o que acontece nos bastidores, dando muita credibilidade a narração. Excelente.
“Nas colinas, as cidades” é o mais absurdo e surreal dos contos, e ainda assim, um dos mais envolventes. Um casal gay de férias pelo leste europeu envolve-se em uma fantástica disputa entre duas cidades, que acaba em uma tragédia assustadora, resumida em um sem número de corpos espalhados por uma colina. Eles descobrem que as tradições podem tomar a mente das pessoas, se elas conseguirem sobreviver, é claro. De tão inverossímel, essa história se torna encantadora.
Eu já conhecia outros livros desse autor, como “Raça da Noite”, “Sacramento” e “Abarat”, que inclusive é uma série e, não sei por que, só se viu o primeiro volume lançado por aqui. Barker é talentoso, descreve o cruel com leveza e poesia, transforma o sangrento e assustador em possível e aceitável. Num tempo onde o horror foi reduzido a diversão inocente para meninas adolescentes, é um alívio voltar ao passado e encontrar o vigor pulsante dos “Livros de Sangue”, para lembrar que o terror já foi assustador.
abril 12th, 2010 §
Slash é, provavelmente, o mais conhecido e influente guitarrista desta geração. Junto ao Guns n´Roses se tornou um ícone, com o Velvet Revolver não se deixou morrer ou viver do passado. Carismático e humilde, evitou a armadilha que o próprio ego poderia armar contra sua carreira e, por isso, ainda é um ídolo do rock n´roll. Nesse primeiro trabalho solo, Slash seguiu uma fórmula já testada anteriormente por outros guitarristas, como Carlos Santana, por exemplo, e trouxe ilustres convidados para cantar em cada faixa. Fez bem em evitar instrumentais chatas e mirabolantes que só outros guitarristas iam entender e gostar. Apostou no que faz de melhor: hard rock, com muitas pitadas pop, é verdade, mas com maiores chances de agradar a um grande público, pré ou pós Guns n´Roses.

Ian Astbury abre o CD com “Ghost”, um som enérgico e envolvente. Ozzy Osbourne, mesmo caduco e sem voz, ainda consegue satisfazer os fãs dos velhos tempos com “Crucify the Dead”, lenta e marcante. Minha maior supresa foi a participação de Fergie, em “Beautiful Dangerous”, talvez a mais pop do CD, ainda assim ótima, e em uma releitura de “Paradise City” com o Cypress Hill, mostrando que tem muita voz para o rock. Myles Kennedy participa em “Back From Cali”, música saída diretamente dos anos 60 e em “Starlight”, em minha opinião a maior candidata a se tornar hit nas rádios FM. Chris Cornell mostra a garra, e a voz, de sempre em “Promise”. Ainda temos Kid Rock, Lemmy Kilmeister, Andrew Stockdale, Adam Levine, Rocco DeLucca, Iggy Pop, M Shadows, e a dupla Duff McKagan e Dave Grohl botando pra quebrar.
Apesar de ser um CD de rock, pode-se dizer que é muito eclético, reacheado da personalidade de cada intérprete e muitas referências a sub-gêneros e épocas distintas. Os solos de guitarra matadores de Slash também estão lá, em cada faixa, encaixados no lugar certo, sem exageros, como parte da música e não tentando se destacar dentro dela, o que é um grande mérito.
Esse é pra ficar no iPod ou celular a semana toda mesmo. Impossível ouvir uma vez só e deixar de lado. Recomendadíssimo.
abril 9th, 2010 §
Em 1993, quando eu estava com 15 anos, só 2 garotos da minha rua tinham linha telefônica. Internet? Nunca tinha ouvido falar. Já tinha visto alguns filmes de ficção científica, falando do “sistema central” e “grande rede”, mas eu estava mais atento às naves espaciais do que a essas nuances técnicas. Acreditem vocês, leitores nascidos pós anos 90, não tínhamos MSN e Orkut! Parece algo impensável, não? Obviamente, o envolvimento social e as comunidades se formavam no mundo real, e não no virtual, o que exigia além de tempo, espaço físico e disposição, um elemento que separa as gerações: a proximidade física.

Meu grupo de amigos tinha uma sala de bate-papo real, a esquina da Rua Pedro Furlan com a Avenida Humberto Caravita. Ali existia um terreno vazio cercado por uma mureta. E com horário marcado, sempre por volta das 15 horas, o grupinho ia se formando, da mesma forma que hoje as pessoas vão aparecendo online no seu MSN. Não era necessário chamar ninguém, eles vinham espontâneamente. Sentavamos na calçada e o chat começa. Ruidoso, muito mais do que o som do seu teclado digitando. Os smileys estampados verdadeiramente em cada rosto. Chamar a atenção era estapear o amigo nas costas com força, quando ele se desligava ou falava alguma besteira acima do nível altíssimo de tolerância do grupo.
Se hoje você conta seus “amigos” no Orkut pela casa das centenas, no tempo da esquina era diferente. Iam te considerar muito… estranho… por chamar uma pessoa que mal te conhece de “amigo”. Amigos eram uns dez, com cinco mais próximos, os outros eram conhecidos. Pra chamar alguém de amigo não bastava clicar em um botão. Não, não. Era preciso conviver, conhecer os gostos, fazer coisas juntos, praticar um esporte, se embebedar, ir pra mesma balada, deixar ele conhecer a sua casa e a sua família, e também todos os problemas dela. Amizade era intimidade irrestrita.
Os grupos se formavam pelo interesse em comum. Com alguns amigos eu jogava bilhar, com outros, videogame, e tinha também a turma que comentava sobre a última história do Superman que estava na banca. A banca! O shopping cultural do adolescente. É, meus amigos, tínhamos que pagar pela notícia, e não baixá-la. Sem dinheiro, uma espiadinha nas capas coloridas dava as dicas do que acontecia mundo afora. Filmes? Cinema e locadora. Muitas horas gastas na locadora, sentindo nos dedos o volume das capas empoeiradas e gastas, lendo as sinopses e vendo as fotos, calculando se valia a pena ou não investir naquele filme, com tantos outros a disposição.
E a música, então? Sem mp3, meus caros. A música era comunitária. Lembro de ir pras lojas de discos (sim, discos) com meu irmão e amigos. Nós escolhíamos cuidadosamente o que compraríamos, para depois poder passar de um pra outro os álbuns, que deviam ser aprovados por todos antes da gente ir pro caixa. Pirataria? Claro que tinha. Fitas K7, que rodavam e rodavam até se desgastarem e dissolverem nos tape decks.
Falar com as garotas, então, era uma desafio emocionante. Se hoje você fica no conforto do seu quarto, tomando coca-cola e ouvindo música, enquanto tenta a sorte falando com a gata do colégio pelo msn, você não sabe como era complicado parar em frente a uma menina, com olhos por todos os lados te observando e falar sem parecer um idiota, e sem tecla de backspace para te socorrer. Uma vantagem: ela não podia te bloquear ou ficar invisível
Pra quê tudo isso? Por acaso vou traçar um paralelo sobre o relacionamento humano antes e depois da explosão das comunicações virtuais? Vou culpar a internet de alguma coisa? Absolutamente, não. Hoje, não consigo me ver sem os recursos da internet, pois eles são irresistíveis. Isso foi apenas para lembrar, já que reparei que, atualmente, as esquinas estão sempre vazias durante a tarde.
A imagem que ilustra esse artigo é de Justin Thiereau